Da Bessarábia a Bonsucesso
terça-feira, 14 de julho de 2020
quarta-feira, 8 de dezembro de 2010
Da Bessarábia a Bonsucesso
Da Bessarábia a Bonsucesso
O alfaiate Chaim (Henrique) Nussembaum desembarcou no porto do Rio de
Janeiro no Carnaval de 1924. Ele vinha de uma cidadezinha do sul da
Polônia, tão pequena que sequer constava do mapa: Kochitz. Trazia exatos
sete dólares no bolso e tinha 27 anos de idade. Buscava uma vida melhor
para sua esposa, Eva, e para o filho Samuel, que estava para nascer.
Samuel veio ao mundo no calor do verão carioca, especialmente sufocante
na casa em que foram morar, na rua Navarro, próximo à Itapiru, no Rio Comprido.
Eva vivia reclamando da temperatura – afinal, fora criada na Polônia,
bem longe dos trópicos.
Em 1926, por indicação de um amigo, pegaram um trem e foram
conhecer a cidade serrana de Petrópolis. Eva adorou o clima
ameno e Henrique decidiu abrir, logo na entrada da cidade, a Alfaiataria
Áustria -- nome trocado para Alfaiataria Brasil na Segunda Guerra Mundial.
Não mais do que uma dezena de famílias de origem judaica habitavam
Petrópolis nessa época. O Dr. Samuel (formou-se dentista no Rio e em 1998
ainda clinicava em Petrópolis) lembra que as crianças eram alfabetizadas
em hebraico e em ídishe "por alguma pessoa mais instruída, que também
transmitia um pouco da história judaica e os princípios morais e
espirituais da religião".
A partir de 1930 a coletividade já crescera o suficiente para permitir-se contratar
um professor permanente, vindo do Rio. Uma escola judaica foi improvisada numa ampla casa, com dois pavimentos, situada na Rua João Pessoa 175. No térreo ficava a escola propriamente
dita e uma pequena sinagoga; no sobrado morava o Professor Icko Sznejder,
sua esposa D. Ida e o seu filho único, Dawid -- meu pai, então com cinco anos.
Haviam imigrado recentemente de Vilna, capital da Lituânia, na época ocupada pela Polônia.
A Rua João Pessoa ligava então -- como ainda hoje -- o centro da cidade
aos bairros petropolitanos, como o Bingen e a Mosela, e a Praça da
Liberdade. "Passava um carro a cada três horas", comenta, rindo, o Dr.
Samuel. O bonde era o meio de transporte mais comum, na década de 30, tanto
em Petrópolis como no Rio.
Seu Henrique tornou-se rapidamente conhecido como bom alfaiate
e líder comunitário. Pertenceu, fundou ou estimulou a formação
de diversos clubes, entidades culturais e associações comerciais.
"Trabalhou ininterruptamente, sem tirar férias, exceto uma vez -- por
motivo de saúde -- desde a sua chega a Petrópolis em 1926" , lembra o
filho Samuel. Esse Cidadão Petropolitano morreu aos 94 anos de idade,
deixando, além dos filhos Rosa e Samuel, sete netos: Cecília Ruth, Syme,
Miriam, Gerson e Fany, filhos de Samuel; e Helena e Marcelo, filhos de
Rosa. E nove bisnetos.
A sinagoga atual de Petrópolis foi construída sobre um terreno doado
pelo Seu Henrique à coletividade: fica na Rua Aureliano Coutinho, 48 e foi
inaugurada em agosto de 1949. A cidade conta ainda com uma
Ieshivá -- colégio-seminário para a formação de rabinos.
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No inverno de 1914 a menina Aída Glusman, então com quatro anos, assistiu
a uma cena que ficou em sua memória durante quase oito décadas: um
grupo de soldados do Czar invadia o vilarejo de Zamerhof, na Bessarábia,
destruindo casas, ateando fogo a estabelecimentos comerciais e matando
judeus. Era mais um pogrom -- só que, naquele, Aída viu sua melhor amiga
ser atirada para o alto, pelas mãos de um cavalariano, e depois cair, sem
tempo para dar um gemido, empalada na ponta da baioneta.
Pouco antes de morrer, aos 80 anos no Rio de Janeiro, em 1990,
Aída Glusman Arenzon - minha avó materna - ainda tinha visões daquela cena.
Às vezes eram transcrições fiéis do que havia visto; outras, imagens
nebulosas em que se mesclavam seres alienígenas disparando raios laser
pelo teto do seu apartamento de Copacabana.
Sua vinda para o Brasil deu-se logo após esse episódio. Um tio seu, de nome
Isaac, já morava no Brasil e convidou a família a aqui refugiar-se.
Preparou uma casa para abrigá-los: vieram a jovem Aída, seus pais Abrão e
Mania Fuvke (Rebeca) e duas irmãs mais velhas: Tuba e Anita. Logo após a
instalação da família no Rio, esse tio pegou tuberculose e veio a falecer.
Toda a família se lembra do desvelo com que Aída cuidou dele. Tuba teve cinco filhos: Isaac, Suzana, Ilka, Raquel e Ari; e Anita teve dois filhos: Sarinha e Jaime Feldman.
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A história do êxodo judaico no período que interessa a este relato começa
com a sua expulsão da Espanha, invadida pelos árabes por volta de 1380.
Buscaram então refúgio na vizinha Portugal, onde viveram em relativa segurança
até o ano de 1497, quando D. Manoel impõe aos judeus a conversão ao
cristianismo para agradar ao seu futuro sogro. Surgem os assim chamados
cristãos-novos, que tiveram decisiva participação no período áureo das
navegações portuguesas que, em 1500, resultaram na "descoberta" do Brasil.
A Escola de Sagres, criada por D. Henrique para formar navegadores, atraiu para o Algarve sábios, cartógrafos, astrônomos e astrólogos – muitos dos quais eram judeus.
(...) O principal assessor de D. Henrique foi Jehuda Cresques, judeu
catalão, filho e continuador da obra de Abrãao Cresques, o brilhante
cartógrafo nascido na ilha de Maiorca (...)" (Bueno, Eduardo, A Viagem do
Descobrimento, Editora Objetiva, Rio, 1998).
Os cristãos-novos tiveram participação decisiva na descoberta e nos
princípios da colonização brasileira. Sua presença deixou marcas
indeléveis principalmente no Nordeste e, mais decisivamente, no período em
que a Companhia Holandesa das Índias Ocidentais ocupou Pernambuco.
Ao ambiente de tolerância política e religiosa acorreram muitos judeus
sefaraditas ibéricos, que se encontravam na Holanda, e alguns asquenasitas
oriundos da Alemanha e Polônia. Desenvolve-se no Brasil holandês a
cultura judaica e são criadas as primeiras sinagogas, com a vinda de
rabinos e cantores. Mas em 1653 os portugueses expulsam os holandeses e
retorna o fantasma da Inquisição. Os judeus partiram de novo rumo ao
exílio, desta vez procurando paz nas possessões holandesas das Antilhas,
como Suriname e Barbados.
Mas, depois que a Constituição de 1824 estabeleceu oficialmente os
princípios da liberdade religiosa, os judeus voltaram ao Brasil. Para as regiões
norte e nordeste vieram judeus sefaraditas, oriundos do Marrocos, Turquia e
de países árabes; em 1828 se estabelece a comunidade judaica
de Belém do Pará.
Posteriormente chegam judeus asquenazitas, provenientes da Europa Ocidental
(Alemanha, Áustria, Hungria), que se localizaram em estados do Sul, provavelmente
em função do clima temperado, e de uma política de estímulo à imigração com
vistas à colonização do vasto território nacional.
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Milca Arenzon Sznejder nasceu em Tombos de Carangola, Minas Gerais,
no dia primeiro de maio de 1928. Sua irmã, Sara, nasceu na mesma cidade
em 19 de setembro de 1929. Seus pais se conheceram lá mesmo, na casa de um
parente, e lá se casaram. Mamãe mostra uma foto esmaecida, onde vovó,
então uma adolescente de aproximadamente 17 anos, abraça um bonito rapaz,
pouco mais velho, como que para protegê-lo das adversidades da vida.
O nome Tombos tem origem na cachoeira que é a principal marca da cidade,
descoberta no início do século XIX pelo Cel. Maximiniano José Pereira de
Souza. O então distrito de Tombos, criado em 1852, tornou-se município em
1924. Para quem sai do Rio de Janeiro, é preciso tomar a direção de Itaperuna,
Natividade e Porciúncula; de Belo Horizonte, é seguir a BR-262 até Realeza e,
ali, então, já se entra para Carangola e Tombos. A cidade onde mamãe nasceu não
é muito conhecida, hoje em dia. Mas no ínício dos anos 1920 a região passava por
um ciclo de prosperidade em virtude da expansão da cultura cafeeira, e muitos emigrantes
para lá rumaram.
Mamãe, aos 80 anos quando escrevo este relato, se orgulha de ter morado numa casa
"à beira-rio". Recorda ainda que a família convivia com “figuras ilustres” do município,
como o Dr. Gotardo, médico parteiro que a trouxe ao mundo, e o contador e advogado
Dr. Pergentino.
Os homens "faziam clientela" e as mulheres cuidavam da casa. Vovô Isaac Arenzon,
filho caçula de um comerciante estabelecido na cidadezinha de Sucoreni (ou Sucron), na Bessarábia, tinha um irmão mais velho, Jacó, que já morava em São Paulo (veio a casar-se
com Geni, tendo uma filha ainda viva, de nome Riva). Outro irmão, Favel, emigrara para Israel.
Vovô veio para o Brasil em companhia de seus primos Hélio e Buzi Rabinovitch
(irmãos entre si) e da prima Esther, no ano de 1918 -- todos andavam pela casa dos vinte anos.
Os laços de parentesco se dão através de Raquel Cerkes, que vem a ser tia tanto de Boris
como de Isaac.
Buzi, apelido de Boris (Boruch) Rabinovitch, nasceu na cidadezinha russa de Moglilev
Podolsky em 17 de setembro de 1904. Sua futura esposa (casaram-se em 1935)
Mirlea (Mina) Breitman, de solteira, é de 29 de julho de 1913. Tiveram dois filhos:
Leon, em 1939, e Isaac, em 1945.
Os Rabinovitch se estabelecem em Madureira, zona norte do Rio, onde uma grande
coletividade judaica circundava a Escola Israelita I.L.Peretz. Nos primeiros anos viveram todos da mesma atividade comercial de seus conterrâneos: em ídishe, "clientelchick".
Sem muitas opções, como primeiro ofício ocupavam-se da venda de mercadorias de
porta em porta, percorrendo a pé os bairros da cidade onde moravam.
Sua freguesia não tinha acesso a lojas e ainda não existia, entre os comerciantes locais, o sistema de vendas a crédito, que eles introduziram.
A vida era extremamente difícil. Vovô costumava caminhar a pé, ao lado da
trilha do bonde que o levaria a determinado local, para economizar o
dinheiro da passagem; dividia com o rapazinho brasileiro que o ajudava a
carregar tecidos um prato feito ou, às vezes, um quibe e um pão árabe na
hora do almoço.
Pouco a pouco conseguiam alugar uma lojinha e melhorar a mercadoria,
passando a vender miudezas, artigos de armarinho e posteriormente móveis.
Isaac estabeleceu-se em Vila Isabel ; Boris em Madureira e Hélio em Bento
Ribeiro.
A prosperidade gradual permitia uma igualmente lenta mudança para a zona
sul da cidade, mais próximo às praias e às temperaturas mais amenas. Isaac e Boris
mudaram-se para Copacabana, Hélio para o Flamengo.
Apenas para registro da árvore genealógica:
Esther teve dois filhos: Sallir e Isaías
Hélio teve dois filhos: Aninha,e Mendel
Buzi teve dois filhos: Leon, e Isaac.
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De sua infância no Rio de Janeiro, a primeira casa de que mamãe se recorda
muito vagamente ficava na Rua Araripe Júnior, no bairro de Aldeia Campista
-- onde viveu Nelson Rodrigues e se passam quase todas as cenas de sua obra literária.
As primeiras lembranças mais vívidas são de uma casa na Rua Emília Sampaio,
tranversal da Visconde de Santa Isabel, já em Vila Isabel :
"Tinha um pé de jasmim e um pé de dama-da-noite e ainda me lembro dos seus
perfumes, um de dia, outro à noite. Havia no térreo um enorme quintal,
com galinhas, pitangas, mangas e uma coruja! O quintal era muito
ensolarado. Meu presente favorito, no aniversário, eram livros, e uma vez
minha mãe comprou uma coleção completa de Monteiro Lobato num sebo.
Trouxe-a para casa mas, antes de permitir que alguém tocasse nos volumes,
abriu-os e colocou-os para pegar sol no quintal, " relembra Milca.
- Podem ter pertencido a algum tuberculoso, explicara!
A casa era alugada e vovô sonhava comprar uma daquele jeito, com quintal e
jardim. (Chegou a ter vários imóveis, mas nenhum assim.) A outra casa que
lhe vem à lembrança, não necessariamente em ordem cronológica, é o imóvel
da Avenida (então Boulevard) 28 de Setembro 346 e 348, onde vovô alugara as
lojas do térreo, para trabalhar, e o apartamento de um dos sobrados, para alojar
a família. Ali, a primeira atividade comercial foi um armarinho, onde vovó vendia cintas,
sutiãs e outros artigos femininos.
(Este imóvel foi comprado pouco a pouco por vovô: primeiro uma loja,
depois outra, mais tarde um sobrado, finalmente o outro. Muitos anos mais
tarde meu pai teve um consultório, no início de sua carreira médica, neste
sobrado . Ainda lá se encontra, alugado a terceiros. No frontespício,
lê-se a data de construção: 1908. )
Outra residência de que mamãe se lembra ficava na Rua Artur Menezes, uma
vila transversal à São Francisco Xavier, no bairro do Maracanã.
- Ali morávamos, os menos pobres, numa casa de dois andares; e do outro
lado, em frente, os mais pobres, em casas de apenas um andar.
"Havia três famílias judias, nessa vila, mas um só telefone -- na nossa
casa." Um outro aparelho havia, que foi fundamental na vida da mamãe: um
rádio que ficava ligado o dia inteiro e que tinha na sua programação duas
atrações especiais para ela: música e informações médicas. Mamãe estudou
piano e medicina, esta como profissão, aquela como seu lazer e para o prazer de
todos os que a cercavam.
"O dia começava com minha mãe fazendo ginástica pelo rádio sob as ordens
do Dr. Oswaldo Diniz Magalhães e ouvindo os conselhos médicos do Dr.
Argolo, que em suma diziam: " repita comigo: hoje eu estou bem; hoje, tudo
correrá da melhor maneira" .
Foi por causa das arengas do Dr. Argolo que mamãe decidiu estudar
Medicina. Antes, porém, passou com brilho pelo Ginásio Vera Cruz, um dos
dois grandes colégios para moças existentes na época -- o outro sendo o
Lafayette. Ela tem ótimas lembranças desse longo período (do curso
primário até o colegial): medalhas de natação numa piscina olímpica;
escola de teatro onde aprendeu a declamar; aulas de inglês e francês;
aulas de latim, com Padre Lucas e de matemática com Professor Pacheco.
Simultaneamente fazia a Escola de Música, preparando-se para ser
concertista. "Lá em casa, cultura vinha em primeiro lugar: mamãe
economizava em tudo para nos dar a melhor educação possível!"
Lembra-se ainda das presenças, nesse período, dos avós Abrão (muito
religioso, ia três vezes por dia à sinagoga da Praça Onze) e Mania Rivke .
(O meu nome é Vitor Abrão em homenagem a este bisavô.)
Vovô Abrão contava histórias em ídiche a mamãe, língua que aprendeu com
ele e que ela diz dominar, hoje, apenas " a nível de "de cozinha" -- ou
seja, para uso doméstico e de nível muito básico.
Recorda-se de algumas datas muito marcantes:
1938 - matinê dominical no Cinema Maracanã, às 14h. Iam a pé -- ela e amigas
Mamãe teria preferido sessões mais tarde, para não ter de ouvir as notícias sobre a
guerra, que a aterrorizavam.
1939-40 - Nova residência, um sobrado à Rua Visconde de Santa Isabel:
"Excelente moradia, com enorme varanda, piano, móveis coloniais, bufê, um
quarto para as crianças, outro para os pais, uma sala que seria de
biblioteca e local de estudos, dependências atrás, escadaria que dava para
um quintal não-plantado. Morei ali de 1938 ou 39 até 1951, quando saí para
casar!"
1946 - "Conheci o Dawid na Faculdade de Medicina. Eu era caloura e ele já
estava no segundo ano. Uma amiga comum das famílias comentou com a mãe
dele a meu respeito, dizendo que ele gostaria de me conhecer. Um dia, eu
estava no anfiteatro e vi um jovem bonitão, embora um pouco gorducho,
dirigindo-se a mim. Perguntou-me se eu era a Milca Arenzon e começamos a
namorar ali!. "
O namoro durou de 1946 a 1951, quando se formou em Medicina pela Faculdade
Nacional da Praia Vermelha.
"Passeávamos na Praia Vermelha, naquela alameda de árvores que ainda hoje
existe no centro da praça e que davam umas frutinhas que eu gostava de
pisar. Íamos às redondezas, na praia da Urca."
Para chegar à Faculdade, mamãe lembra-se de pegar um ônibus cinza,
que pertencia à Light, ou então o bondinho de número 4, linha Vila
Isabel-Praia Vermelha.
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Papai já morava na Av. Atlântica, próximo ao Leme, onde sua mãe alugava
quartos (seu grande apartamento funcionava com pensão) e fornecia
refeições para os hóspedes e para gente de fora, geralmente judeus que
trabalhavam nas redondezas. (Lembro-me especialmente de um relojoeiro,
estabelecido na praça do Lido, que almoçava diariamente.)
Aída Zlocovsky e Icko (Isaac) Schneider, mais tarde Sznejder -- avós
paternos -- formavam uma dupla curiosa: ele, professor de ídiche,
intelectual socialista, autor de uma gramática para crianças nessa língua,
jamais publicada, desportista que praticava o trecking e o alpinismo; D. Aída,
figura firme e simples, cozinheira de mão cheia, era boa administradora do lar.
Meu avô paterno era professor de ídiche para crianças na cidade de Vilna,
então e hoje capital intelectual da Lituânia. Foi com agradável espanto
que ele recebeu um convite da congregação judaica petropolitana para vir
ao Brasil ensinar a língua às crianças das famílias judias que habitavam
Petrópolis. Mas o convite vinha a calhar: o socialista Icko definitivamente não
se enquadrava nas determinações políticas da potência que ocupava o seu país;
e a Polônia era, além de tudo, um dos mais anti-semitas regimes europeus.
Quem assinava a carta-convite era um dos imigrantes pioneiros, o alfaiate
Henrique Nussembaum, que habitava um sobrado às margens do rio Piabanha e
mantinha, no térreo, movimentada oficina e escritório. Fazia-o no papel
de chefe da comunidade judaica da próspera cidade, que oferecia ao meu
avô, e ao rabino que importavam à mesma época, moradia decente, salário
modesto e, principalmente, uma vida tranquila no Novo Mundo, longe das
diatribes européias. Icko e sua esposa Ida acharam que era um bom lugar
para começar vida nova.
Meu pai teve seu registro de nascimento lavrado ainda pelas autoridades
polonesas, e chegou ao Brasil com cinco anos de idade. Mas se orgulhava
de, aos 18, ter optado pela nacionalidade brasileira. O português foi a sua
língua da rua, no colégio Pedro II, onde sempre estudou - em Petrópolis e no Rio
- enquanto que o ídiche era a língua doméstica, que falou com os pais enquanto esses viveram.
(Fui alfabetizado por esse avô, que me punha ao colo e me mostrava lindas gravuras
coloridas com caracteres em hebraico. Alfabetizado em ídiche, aos quatro anos, antes
de em português, guardei para sempre na memória a beleza do desenho daquelas
letras, o seu colorido e, principalmente, o desvelo carinhoso do avô que
me revelava aquele novo e fascinante mundo. E guardei também até hoje o
amor aos livros e à leitura, bem como uma emoção toda especial quando
escuto ídiche -- o que acontece cada vez mais raramente. )
Milca formou-se em 1951, Dawid um ano antes. Casaram-se no dia 30 de
dezembro de 1951 e eu nasci em 10 de outubro de 1952, na casa de saúde São
José, em Botafogo. Morávamos em Copacabana, na rua Ministro Viveiros de
Castro 62 apt. 201, "comprado com financiamento em 20 anos do Banco
Hipotecário Lar Brasileiro", como lembra mamãe.
O imóvel era muito pequeno, apenas 2 salas e um quarto, varandinha com
vista para área livre nos fundos -- mas ficava próximo à praia, à Praça do Lido e,
o que era mais importante, a cinco minutos das residências dos avós maternos e
paternos.
As prestações, que mamãe imagina fossem muito baixas, podiam ser pagas
porque ambos já trabalhavam: papai, como cirurgião na Santa Casa, e mamãe
como interna da cadeira de Clínica Médica, na mesma instituição. Antes
disso mamãe já havia feito residência durante um ano e meio no Pronto
Socorro Central (hoje Souza Aguiar) . Papai foi interno e residente na
Pró-Matre e, ainda estudante, escolhido para inaugurar a Maternidade Sarah
Kubitschek, mais tarde hospital do Iapetec e hoje Hospital de Bonsucesso,
do Inamps, na Av. Brasil. Ali trabalhou até aposentar-se por motivo de
doença cardiovascular.
As doenças cardíacas eram comuns na família de papai: vovô teve
insuficiência cardíaca mesmo tendo levado, na adolescência, vida de
atleta: corria na praia, jogava handbol e fazia longas caminhadas e
alpinismo. Papai sempre teve tendência à obesidade e passou a vida
fazendo dietas. Durante certa época, praticou esportes como remo e vôlei.
Neste último era um "perna de pau", segundo testemunha seu amigo Efraim
Dines. (Jacob Guerstein, outro contemporâneo, contesta: "Então éramos
dois!")
Quando papai decidiu estudar Medicina, desceram de Petrópolis para o Rio e
escolheram o bairro de Bonsucesso, de baixa classe média, para habitar.
(Bom Retiro, em São Paulo; Bom Fim, em Porto Alegre; Bom Sucesso, no Rio –
quanta "coincidência" nesses nomes de lugares onde se refugiaram as comunidades!
de origem judaica, primeiro, e mais tarde coreans e chinesas...)
Era longa a viagem de bonde até a Faculdade de Medicina da Praia Vermelha.
Tão longa e penosa que, assim que puderam, alugaram um espaçoso
apartamento em Copacabana, nos fundos de um prédio da Avenida Atlântica.
Para pagá-lo, alugavam quatro dos seus cinco quartos e vovó Ida,
cozinheira de mão cheia, oferecia refeições aos hóspedes e mesmo a
moradores das vizinhanças que apreciavam o sabor de sua comida.
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Jacob Guerstein nasceu em 1927 no Hospital da Cruz Vermelha, na Praça do
mesmo nome, no Rio de Janeiro, filho de Pinie ou Pinheiro (Schoichet)
Guerstein e de Mina. Seu pai nascera em 1890, na cidade de Yedenetz,
então ocupada pela Rússia e emigrara para o Brasil em 1912. A mãe,
nascida numa cidadezinha igualmente pertencente ao Império Russo às
margens do Rio Dniester, nasceu em 1900 e chegou ao Brasil em 1925.
Casaram-se em 1926 .
O Schoichet no nome do seu pai refere-se à profissão que ele exercia:
trata-se do especialista em abater animais de acordo com os preceitos e
rituais judaicos, para que o alimento seja considerado kosher (puro).
Devia ser, necessariamente, uma pessoa extremamente religiosa.
"Uma vez, conta Jacob, alguém trouxe uma vaca para papai abater, mas foi
logo tentando induzi-lo a não encontrar qualquer defeito ou imperfeição no
animal porque tratava-se de seu único recurso (faz um gesto, esfregando a
ponta dos dedos polegar e indicador) para as compras necesárias ao shabat.
Papai, então, tirou do bolso algumas moedas e passou-as ao dono da vaca,
dizendo: Aqui está garantido o seu shabes; agora deixe-me ver sua vaca sem
pressionar-me..."
Jacob conheceu meu pai e avós paternos na casa-escola da Rua João Pessoa
nº. 45, em Petrópolis, onde ele e seu pai iam anualmente passar férias.
Frequentemente Jacob era deixado aos cuidados de D.Ida e Seu Isaac, para
que o pai pudesse viajar com a mãe até alguma outra cidade de veraneio.
Foi assim que, por volta dos oito ou dez aos de idade, nasceu a amizade
que duraria a vida inteira de Jacob e Dawid. Um menino chamado Julinho
morava naquela mesma residência.
"Durante muitos anos pensei que ele fosse irmão do seu pai! Foi uma
surpresa descobrir, mais tarde, que se tratava de um órfão que fora
acolhido por D. Ida e que era realmente tratado como filho pelos seus
avós, e como irmão, pelo seu pai... Isto demonstra, aliás, a enorme
ternura de D. Ida, especialmente para com as crianças."
"Íamos sempre nadar na praia de Ramos, então limpinha! E tenho clara
lembrança do orgulho com que seu papai comentava essas nadadas", conta
Jacob.
Do meu avô paterno, ele sabe com certeza que nasceu em Vilna, e que
provavelmente estudou Pedagogia e filiou-se ao Bund. Suas memórias mais
remotas vão até os cinco anos de idade, quando sua família morava numa casa
da rua Marquês de Valença, na Tijuca, ao lado da escola Scholem Aleichem,
onde ele estudou. A escola foi fundada e dirigida pelo famoso professor Eliezer Steinberg, que
decidiu voltar à sua terra natal, a Rumânia, ainda antes da Segunda Guerra -- e lá morreu.
Uma escola israelita no Rio de Janeiro leva hoje o seu nome.
Outro nome de que Jacob se lembra é o do Cabiras, um clube criado para
promover palestras e conferências, bailes com música ao vivo ou tocada em
discos. Era grande a frequência dos jovens judeus, muito embora a Europa
estivesse em guerra e vez por outra alguém criticasse:
- Mas como vocês têm coragem de dançar enquanto tem gente morrendo por lá?
Jacob e papai foram membros da diretoria do Cabiras e papai chegou a ser
Tesoureiro. Jacob formou-se em engenharia civil pela Escola Nacional de Engenharia e
hoje tem uma fábrica de papel para indústrias gráficas e uma loja de
tecidos, esta última fundada pelo seu pai e que se localiza no número
23 da Rua Buenos Aires, centro do Rio. Seu pai a fundou na rua Senador
Eusébio, que ficava na Praça Onze e desapareceu para dar lugar à criação
da Av. Presidente Vargas.
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Conversei muito com o dentista Efraim Dines, que foi amigo e colega de meu pai
no Lar da Criança Israelita, que ficava na rua José Higino, na Tijuca.
Ele tem memórias emocionadas a respeito dos meus avós paternos, que
dirigiam aquela instituição, e de meu pai, que lhe ensinou inglês
aparentemente para o vestibular. Mais tarde, quando meus avós e pai se
mudaram para o apartamento do Leme, Dr. Efraim chegou a alugar lá um
quarto:
- "Eu já era funcionário público, dispunha de pequeno salário, e podia
desfrutar das delícias da praia e da companhia deles."
Efraim é irmão de Alberto, jornalista, meu professor na PUC e guru de toda
uma geração de jornalistas. Sua voz já estava embargada ao convidar-me para visitá-lo
no grande sítio que tem próximo a Teresópolis.
Chego às 10h30m à sede, que fica a 35 km de Teresópolis, na altura do km 52
da estrada conhecida como Rio-Bahia, na direção dos municípios de Areal e
São José do Rio Preto. Ele diz que "toca a propriedade" desde 1982.
Vejo pastos, um lago artificial, muitos cavalos, gado, alambiques, picadas e morros.
Se fossem gêmeos, não se pareceria tanto com o irmão. Alto, musculoso e magro
aos 72 anos na data da entrevista, me recebe com enorme simpatia. Me apresenta a toda a família e convida a ficar para o almoço. Não só fiquei, como mandei minha dieta às favas, e provei da cachacinha que ele produz lá mesmo -- eu que não bebo álcool. Saí de lá por volta
das quatro da tarde, com a sensação de que minha vida se havia enriquecido de
alguma forma especial que não sei explicar.
Efraim Dines nasceu em São Cristóvão , Rio de Janeiro, em 1926 (mesmo ano
de nascimento de meu pai), filho de Israel Dines e de Rachel Vainer. Seus
pais vieram de vilarejos lituanos chamados respectivamente de Rovno e
Kriper (Horyngrad), fugindo de manobras do exército polonês entre os anos de 1898 e
1901. Israel Dines era ativista do Poalei Tzion; Rachel, uma sufragista e ginasiana.
Chegando ao Brasil, o pai teve uma oferta para ser sócio numa tinturaria
em Curitiba -- quem o convidava era o líder da comunidade curitibana, Salomão Guelman.
Não deu certo. Seus pais tiveram problemas de relacionamento e em 1941 ou 42, quando
Efraim tinha cerca de 15 anos, sua mãe foi trabalhar como secretária do
Lar da Criança Israelita Rosa Vaisman, onde cerca de 30 crianças sem
recursos moravam e estudavam. Meus avós eram diretores da instituição mantida pela comunidade.
" Nós morávamos numa pensão bem ao lado e seu pai começou logo a me
ensinar inglês. Lembro até hoje que ele sabia slang, gíria, como por
exemplo na expressão "blue blind paralytic drunk", significando mais ou
menos que o cara bebera tanto que saíra do ar!"
O prédio do Lar ainda está de pé, conta Efraim, na esquina das ruas Conde de Bonfim
com José Higino, do lado direito da primeira, bairro da Tijuca, no Rio de Janeiro.
- Quando seus avós se mudaram para o Leme, pouco mais tarde, cheguei a
alugar um quarto lá, para veraneio. Em 1946 passei para a faculdade de
Odontologia e a tornei-me calculista do Conselho Nacional de Geografia.
Mais tarde fui transferido para o gabinete do então Ministro João Pinheiro
Neto, a quem nunca vi, e que nunca me viu, e após 1964 -- criada a
carreira de dentista -- cheguei a chefiar o Serviço Dentário do IBGE. Fui
estudar nos EUA por dois meses.
Efraim casou-se com uma jovem filha de pai sefaradita e maçom. Com o
objetivo de incutir na cabeça dos sogros a idéia do sionismo, criou e
dirigiu, durante os anos de 1947 a 1948, a revista A Luz, de que foi
colaborador o seu irmão Alberto. Escreveu também para a revista Brasil-Israel,
de Berta Koogan, e para o Jornal Israelita, fazendo versões de contos hebreus
do espanhol para o português.
Esteve em Israel duas vezes, uma em 1955 e outra em 1996, esta para o Bar
Mitzvá de seu neto Breno. Efraim tem três filhos: a médica Ilana, mãe de Breno;
o dentista Hélio e a arquiteta Tamar, que mora em Ilhéus (BA).
Alberto, seu irmão, tem quatro filhos: as gêmeas Débora e Liana, Arnaldo e
Alexandre. Débora e Arnaldo seguiram também o jornalismo.
Continua:
(Em fase de entrevistas, a vida de minha tia Sara, que se formou em arquitetura
e, numa viagem a trabalho, conheceu em São Paulo o engenheiro paulistano e futuro
marido Wolf Altman, pais dos meus primos Sérgio e Miriam.)
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